Carta aberta a um povo doente. 70% pelo menos





Caro povo português. Este ano, a abstenção nestas eleições europeias está perto dos 70%.
Tenho evitado durante os últimos anos escrever-te esta carta, mas esta foi a gota de água. Estás doente e hoje, mais do que nunca, provaste isso.

Estás doente porque enches estádios, avenidas e praças por causa de futebol, mas esvazias as urnas de voto depois de décadas a viver em ditadura.

Estás doente porque passas o tempo a reclamar nos cafés e nas redes sociais, mas recusas-te a perder cinco minutos do teu tempo para colocar a cruz num papel.

Estás doente porque te preferes indignar com um árbitro que marcou mal um penalti, do que com aqueles que durante anos fecharam os olhos a corrupção e hoje, como manipulação, mascaram-se de alternativa.

Estás doente porque te concentras demasiado no número de namorados de uma atriz qualquer ou nos milhões que um clube gasta num jogador, do que nos milhões que desapareceram na Saúde e na Educação nos últimos anos.

Estás doente porque preferes rechear centros comerciais por causa de descontos, do que recolheres assinaturas para petições importantes, como para a redução de horários de trabalho para sobreviventes de cancro ou para a renegociação das PPP’s.

Estás doente porque cantas pela morte de uns, assobias e veneras outros, insultas o teu vizinho por não ser do teu clube ou da tua freguesia e deixas-te comandar por gente que apenas te quer confundir.

Em tempos invadiste Lisboa pelo fim da ditadura, a Assembleia da República pelo fim de muitas injustiças, mas agora fechaste-te em casa e na segurança do silêncio.

Estás doente porque não assumes a culpa. A culpa que partilhas com aqueles que deixaram os extremistas gritarem mais alto que os moderados, aqueles que ignoraram os problemas e fecharam os olhos ao ressentimento acumulado.

Com estas palavras que te escrevo, não te peço uma revolução. Peço-te que voltes a viver a democracia da maneira apaixonante com que a viveste no passado.
Não escrevo para a direita e nem para a esquerda, para os socialistas ou social-democratas. Escrevo para ti caro português, que falas mais do que fazes e assim ajudas os mesmos que planeiam nas tuas costas os crimes e a podridão que fazem as capas dos jornais no dia a seguir.

Cura-te, meu povo.

Tenho dito.

Autor: Gaspar Macedo



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